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Análise de produtos verdes à luz das estratégias de ecodesign e da rotulagem ambiental: o caso Greenvana

Thaise Graças Cruz do Bu1, Lucia Santana Freitas1

1 Universidade Federal de Campina Grande


RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo avaliar os aspectos ambientais de produtos verdes a partir da teia de estratégias de Ecodesign, proposta por Brezet et Hemel (1997) e da Rotulagem Ambiental regulamentada pela norma ISO 14020. A pesquisa é de natureza exploratória e descritiva, do tipo estudo de caso. O caso escolhido foi a Empresa Greenvana, especializada no varejo virtual de produtos verdes. Dos 715 produtos analisados, o tipo de rotulagem mais utilizado foi a autodeclaração, sendo as mais utilizadas: degradável (53%), reciclável (40%) e vida útil do produto alongada (28%). O uso de selos verdes se deu em apenas 20% dos produtos, sendo os mais utilizados o FSC e o IBD. Quanto às estratégias de ecodesign, a mais utilizada foi a seleção de materiais de baixo impacto, especificamente, seleção de materiais não agressivos e materiais recicláveis.

Palavras-chave: Ecodesign; Rotulagem Ambiental; Produto Verde; Sustentabilidade.


INTRODUÇÃO

A busca pelo crescente e/ou manutenção de níveis de desenvolvimento econômico tem se constituído uma das grandes preocupações dos governantes no contexto atual, sejam esses de países mais desenvolvidos ou em desenvolvimento. Paralelamente a essa busca, discute-se a sustentabilidade do modelo econômico vigente, uma vez que, em sua essência, esse tipo de desenvolvimento provoca fortes impactos ambientais, causados, por um lado, pelo excessivo consumo de recursos naturais bem acima da capacidade de recuperação do planeta, e, por outro lado, apresenta uma crescente descarga de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, que têm provocado fortes implicações socioambientais.

Diante deste contexto e considerando que o estímulo ao crescimento econômico é estratégico para a sobrevivência e soberania das nações e que o equilíbrio e bem-estar socioambiental deve ser preservado, novas formas de atuação são discutidas, construídas e pouco a pouco aplicadas, por diferentes instituições, governamentais ou não, com ou sem fins lucrativos, em diferentes âmbitos de atuação, local, regional e internacional, atuando de forma separada ou coletivamente. Parte-se do entendimento de que a responsabilidade pela construção de um desenvolvimento econômico mais sustentável é obrigação de todos, ou seja, dos diferentes atores sociais: governos, organizações e cidadãos.

Tratando-se especificamente das organizações com fins lucrativos, elas constituem-se os principais agentes causadores de impactos ambientais. Entretanto, como forma de reverter essa situação, tem-se iniciado um processo de reestruturação de seus modelos de gestão por meio da incorporação de aspectos ambientais, seja de forma voluntária, por pressões legais ou por pressões de mercado. Cabe destacar que a incorporação de tais práticas ambientais ocorre de diferentes formas e intensidades, uma vez que as organizações são heterogêneas e atuam em diferentes contextos, resultando numa diversidade de práticas ou estratégias ambientais que podem se inserir em um continuum, onde em um extremo apresentam as estratégias puramente reativas para atender aspectos legais, e do lado extremo, as estratégias mais proativas, aquelas que vão além do atendimento dos requisitos legais e são guiadas pela busca de vantagens competitivas.

Considerando a postura mais proativa, tais organizações têm adotado diferentes modelos e ferramentas de gestão ambiental, tais como o sistema de gestão ambiental certificado, produção mais limpa, auditoria ambiental, avaliação de impacto ambiental, marketing verde, rotulagem ambiental e ecodesign. Essas ferramentas, em linhas gerais, buscam melhorar o desempenho ambiental organizacional através da melhoria de seus processos de trabalho e de seus produtos/serviços, centrando em diferentes aspectos, como o menor consumo de recurso e energia; uso de materiais menos agressivos; redução de resíduos, reuso e reciclagem; e ampliação do ciclo de vida do produto e multifuncionalidade.

Uma das práticas que tem sido crescente por parte das organizações é a criação de produtos que contemplem atributos ambientais, cujas denominações apresentam-se de forma variada na literatura: produtos verdes, produtos ambientalmente corretos, produtos amigos do ambiente, ecologicamente corretos, produtos sustentáveis entre outras. No desenvolvimento desses produtos, as organizações dispõem de diferentes ferramentas de gestão ambiental, dentre as quais se destaca o ecodesign, que tem despertado interesse não só das empresas, mas também da academia. Ao longo dos anos foram elaboradas diferentes ferramentas de ecodesign, cuja maioria se encontra disponível para uso das organizações. Também se tornou crescente o interesse de pesquisadores pelo tema de ecodesign, considerando que este, por sua natureza, apresenta-se como multidisciplinar. Segundo Baumann et al. (2002), o ecodesign tem sido fortemente estudado pelos campos da engenharia, negócios e política.

Neste contexto, pode-se destacar a importância do uso de ferramentas de ecodesign quando da concepção de produtos com atributos ambientais, já que é na fase de design que serão definidos os tipos/quantidades de materiais a serem utilizados, os aspectos inerentes ao processo produtivo; a funcionalidade, uso e vida útil; e o tipo de disposição final, ou seja, a fase de concepção de um produto implica pensar em todas as fases subsequente do ciclo de vida do mesmo.

A criação de produtos verdes contribui para a redução dos impactos ambientais, para a melhoria da competitividade das organizações e atendem aos anseios dos consumidores sensíveis às questões ambientais. E, uma vez criados, as organizações necessitam repassar essa informação aos seus clientes atuais e potenciais, o que pode ser realizado por meio de outra ferramenta de gestão ambiental conhecida como rotulagem ambiental. Trata-se de declarações sobre os atributos ambientais de um produto que podem estar explícitas nos rótulos, em folhetos ou em anúncios.

Reconhece-se as importantes contribuições do uso das ferramentas de ecodesign e da rotulagem ambiental para a criação e comunicação de produtos verdes. Porém, faz-se necessária uma reflexão e avaliação mais criteriosa sobre quando, de fato, um produto pode ser considerado verde, visto que, por um lado, não há um consenso na literatura sobre o conceito de produto verde, e por outro, há uma crescente quantidade de produtos lançados no mercado como verdes.

Assim, questiona-se: Até que ponto os produtos concebidos e comunicados como verdes podem ser considerados, de fato, como verdes? Diante do problema de pesquisa explicitado, este artigo objetivou avaliar os atributos ambientais dos produtos verdes utilizando-se, para isso, da teia de estratégias do ecodesign e do tipo de rotulagem ambiental utilizado.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Produtos verdes

Na literatura não há consenso sobre o conceito de produtos verdes, considerando que há uma diversidade de produtos verdes existentes e expectativas de expansão de criação desses produtos, a construção de um conceito que venha contemplar uma gama maior de produtos se tornou um grande desafio, dado que cada produto verde apresenta particularidades e diferentes tipos/possibilidades de contribuições e impactos ambientais.

Já se pode verificar o direcionamento em torno de um consenso sobre as características dos produtos verdes, sobretudo no que se diz respeito à redução de impactos ambientais causados por esses produtos quando comparados com produtos convencionais. Essa redução advém de um menor consumo de recursos/energia ou do consumo de recursos menos agressivos e da redução das consequências na fabricação, uso e disposição final desses (Reinhardt, 1998; Ottmann, 2006; Luttropp et Lagerstedt, 2006), além de outras características associadas à natureza verde de produtos, conforme explicitas na figura 1.

Figura 1. Características de produtos verdes

Figura 1 Figura 1 Figura 1

Fonte: Adaptado de Dangelico et Pontrandolfo (2010)

Todas as características citadas na figura 1 terminam se relacionando com uma ou mais etapas do ciclo de vida do produto. O que se percebe é que tais produtos estão inseridos em um continuum: de um lado extremo, apresentam poucas características ou de baixa significância, do outro, muitas características ou de maior significância.

Rotulagem Ambiental

A rotulagem ambiental diz respeito às declarações feitas sobre os aspectos ambientais de um produto, as quais podem estar explícitas nos rótulos, em folhetos ou anúncios. Ela se apresenta como uma importante ferramenta de gestão ambiental e contribui para melhorar as vantagens competitivas das organizações, uma vez que informa ao cliente a superioridade ambiental de seus produtos, podendo influenciá-los nas decisões de compra.

As declarações são regulamentadas pela Norma ISO 14020 e se apresentam de três tipos (I, II e III). O Tipo I são declarações feitas e atestadas por organizações externas, à exemplo dos selos verdes; são regidas pela Norma ISO 14024; e feitas em vários setores para medir aspectos relacionados à eficiência energética e hídrica, manejo florestal. As declarações do Tipo II, denominadas de autodeclarações e regidas pela Norma ISO 14021, referem-se àquelas elaboradas e comunicadas pela própria empresa, sem a participação/confirmação de outras empresas. Como exemplo, tem-se: compostável, degradável, projetado para desmonte, vida útil do produto alongada, energia recuperada, reciclável, uso reduzido do recurso, consumo reduzido de água, reutilizável e recarregável, e redução de resíduos.

Segundo Wells (2006), o uso das autodeclarações tem resultado numa vasta gama de anúncios apoiados pelos limites de criatividade das agências de marketing, apelando pela crença na veracidade das informações por parte do consumidor, o que nem sempre tem acontecido. As declarações do Tipo III ou fichas técnicas explicam o impacto ambiental do produto durante todo seu ciclo de vida. São regidas pela Norma ISO 14025, que ainda se encontra em fase de elaboração e discussão em função da complexidade e dificuldade que envolve seu processo de implementação.

Independentemente do tipo de rotulagem ambiental utilizado, elas devem seguir alguns princípios, como apregoa a Norma ISO 14020:

  • Não devem ser feitas para criarem barreiras comerciais;

  • Proibido declarações generalizadas e de difícil comprovação, como as do tipo: o produto promove o desenvolvimento sustentável;

  • As informações sobre os atributos ambientais do produto devem ser dadas aos clientes quando solicitadas;

  • Devem se basear na ciência e não em mitos populares;

  • Não podem ser enganosas;

  • Precisam ser de fácil verificação.

Cabe ressaltar que há outros tipos de declarações que não se referem aos atributos ambientais do produto, e, portanto, não podem ser consideradas como rotulagem ambiental. Como exemplo se tem as declarações sobre o tipo de material utilizado (classificação do plástico ou vidro); da qualidade do produto (selo de qualidade), e a contribuição da empresa para organizações não governamentais (ONG).

Deste modo, tem-se observado o aprimoramento e crescimento da utilização da rotulagem ambiental como resposta a crescente inquietação sobre a proteção do meio ambiente, por parte dos governos, do mercado e dos cidadãos. Nesse processo, as empresas estão passando a identificar as preocupações ambientais como benefício competitivo e distinção no mercado (Barros et Freitas, 2010).

Para além das contribuições ambientais e organizacionais, a rotulagem ambiental pode se constituir um poderoso instrumento de discussão sobre o impacto ambiental causado pelas diferentes atividades econômicas e seus respectivos produtos/serviços, bem como para o desenvolvimento de uma consciência ambiental e mudanças nos hábitos de consumo. Tais contribuições, no entanto, só poderão ocorrer se a ferramenta for utilizada corretamente, ou seja, se as declarações forem, de fato, verdadeiras, caso contrário, se constituirão instrumentos de enganação ambiental.

Ecodesign

A incorporação da dimensão ambiental no design de produtos/serviços tem sido cada dia mais frequente no contexto empresarial em decorrência das imposições legais e institucionais, ou, por opções estratégicas das próprias organizações como novas oportunidades de negócios. Segundo Peneda et Frazão (1994) apud Nascimento et Venke (2006), no desenvolvimento de novos produtos, além dos atributos eficiência, qualidade, funcionalidade, estética, custo e ergonomia, também se passa a incluir os atributos ambientais.

Neste sentido, a melhoria do desempenho ambiental de um produto precisa ser pensada a partir da concepção do produto e perpassar todo seu ciclo de vida. Para tanto, há uma diversidade de ferramentas de ecodesign que podem ser utilizadas pelas organizações, das mais simples como os checklist às mais sofisticadas, apoiadas pelas tecnologias da informação e comunicação.

Partindo da diversidade de ferramentas de ecodesign, Bovea et Perez-Belis (2010) propõem uma taxonomia agrupando-as em três blocos: a) Métodos para avaliação dos impactos ambientais, subdividido em técnicas qualitativas, com sete ferramentas, semiqualitativas (n=5) e quantitativas (n=6); b) Ferramentas para a integração de aspectos ambientais no processo de design, apresentando 20 ferramentas; e c) Métodos para a integração de requerimentos ambientais com outros aspectos tradicionais, com sete ferramentas (ver figura 2).

Figura 2. Taxonomia de ferramentas de ecodesign

Figura 2

Fonte: Bovea et Perez-Belis (2010)

Entre as ferramentas descritas, destacam-se as estratégias de ecodesign (RAILS), especificamente a proposta de Brezet et Hemel (1997), LiDS Wheel ou Teia de Estratégia de Ecodesign (TEE), a qual foi utilizada neste estudo.

Para subsidiar a avaliação do produto, a TEE apresenta oito estratégias genéricas de ecodesign e 33 princípios, classificadas em nível de componentes do produto, nível de estrutura do produto e nível de sistema do produto, conforme descrito na figura 3.

Figura 3. Estratégias de Ecodesign

Figura 3

Fonte: Adaptado de Hemel et Cramer (2002)

Os resultados obtidos a apartir da avaliação são representados por um gráfico do tipo teia e representam uma variação de 20 pontos percentuais, que vai de 0% (centro do gráfico) até 100% (último círculo). O centro da teia representa um desempenho ambiental inadequado e o círculo mais externo, um ótimo desempenho. Uma vez identificado os resultados, pode-se escolher as estratégias com baixo desempenho e priorizá-las.

Considerando os aportes teóricos sobre as ferramentas de rotulagem ambiental e ecodesign, acredita-se que elas podem contribuir significativamente para avaliar atributos ambientais de produtos denominados verdes.

METODOLOGIA

Esta pesquisa, em função de suas características, classifica-se como exploratória e descritiva (Vergara, 2002). Quanto aos meios, enquadrou-se como estudo de caso, por ter realizado uma análise mais apurada acerca de um determinado fenômeno. De acordo com Yin (2003), os estudos de caso representam a estratégia preferida quando se detêm pouco controle sobre os acontecimentos e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real.

O caso escolhido foi o da empresa Greenvana, criada em 2010 para vendas online exclusivas de produtos com atributos verdes. No Brasil, a empresa foi considerada uma das maiores e mais influentes neste tipo de negócio, recebendo destaque como empreendedorismo sustentável no Guia Exame de Sustentabilidade 2011. Atualmente, a Greenvana conta com mais de 2.000 produtos, distribuídos entre os seus dois departamentos: Greenstore e Greenforma. Para esta pesquisa foi considerado o departamento Greenstore, com seus 715 produtos dispostos em oito categorias: 1. Bebê, 2. Escritório e Papelaria, 3. Pets, 4. Tecnologia e Inovação, 5. Casa, 6. Crianças e Adolescentes, 7. Moda, 8. Beleza e Bem-estar (ver figura 4). Todos os produtos acompanham descrição de seus respectivos atributos ambientais. O segundo departamento, Greenforma, tem foco no comércio de produtos e sistemas para construção, reforma e eficiência hídrica e energética, e oferece de materiais básicos a soluções de energia, como o sistema fotovoltaico.

Figura 4. Tipos de produtos por categorias

Figura 4

Fonte: Elaboração própria

O período de coleta dos dados foi de outubro de 2012 a junho de 2013. Os dados obtidos foram do tipo secundário, coletados no próprio site da empresa, onde foram escolhidos os produtos a serem analisados, acompanhados de seus respectivos atributos.

A análise dos dados foi feita de forma qualitativa e quantitativa, uma vez que a pesquisa envolveu aspectos objetivos e subjetivos, passíveis ou não de quantificação. O foco da análise foram os atributos ambientais descritos para cada produto, os quais foram avaliados a partir da Teia de Estratégia de ecodesign, para identificar quais as estratégias utilizadas e os tipos de rotulagem ambiental utilizados.

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Rotulagem ambiental

Constatou-se a utilização de rotulagem Tipo I, referente aos selos verdes, e do Tipo II, relacionada às autodeclarações. Quanto aos selos verdes, pode-se verificar que foram usados por apenas 20% (n=143) de todos os produtos analisados (n=715). Desse reduzido número, foi percebido que quando confrontada a diversidade de selos com a quantidade de produtos, a categoria Crianças e Adolescentes se evidencia: dos 136 produtos apresentados, 60 (44,11%) estavam associados a algum dos 4 selos identificados (ver figura 5).

Figura 5. Rotulagem Ambiental

Figura 5

Fonte: Elaboração própria

Outra categoria que também usou 4 tipos de selos verdes foi a Casa, no entanto, comparado ao montante de produtos dispostos, a ocorrência foi ínfima: dos 206 produtos comercializados na categoria, somente 10 (4,85%)possuíam algum dos quatro selos identificados.

A categoria Tecnologia e Inovação foi a que menos selos utilizou, contando apenas com um selo verde, o qual se encontrava em dois produtos dos 14 existentes. A figura 6 delineia melhor as categorias de produtos analisados, uma vez que quantifica cada uma com os seus respectivos valores percentuais, relacionando o total de selos verdes identificados à totalidade de produtos que os utilizaram e como isto se reflete no montante de produtos presentes em cada categoria.

Figura 6. Uso de selos verdes

Figura 6

Fonte: Elaboração própria

Quanto ao tipo de selos verdes foram utilizados 10 tipos diferentes, listados a seguir:

  • IBD (Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento);

  • GOTS (Global Organic Textile Standard);

  • IMO (Instituto de Mercado Ecológico);

  • ROHS (Restriction of Certain Hazardous Substances/Restrição de Certas Substâncias Perigosas);

  • ECOCERT (Certificação Orgânica);

  • SGS (Société Générale de Surveillance/Companhia de Verificação Geral);

  • COMÉRCIO JUSTO (Fair Trade);

  • Control Union (União de Controle);

  • FSC (Forest Stewardship Council/Conselho de Manejo Florestal);

  • NOP (National Organic Program/Programa Nacional Orgânico).

Cabe destacar que os tipos mais utilizados foram o FSC para 48 produtos e o IBD para 42 produtos, ambos representam 63% dos produtos com esse tipo de certificação.

Ao se analisar o uso de selos verdes por categorias de produtos, verificou-se que eles foram mais utilizados pelas categorias Crianças e Adolescentes e Bebê, correspondendo a 44% e 34% de seus produtos, respectivamente (ver figura 5). Isto pode se dar em virtude da localização das certificadoras no Brasil, o que facilita o acesso, bem como da amplitude de produtos que esses selos abarcam. O selo FSC, por exemplo, comporta um conjunto de produtos cuja matéria-prima principal advém de madeira manejada de forma ecologicamente correta, podendo estar presente em acessórios como escovas de pentear, brinquedos infantis, lápis de colorir e folhas de papel.

No que tange às autodeclarações, constatou-se sua predominância em muitos produtos: dos 715 produtos analisados, 459 possuíam algum tipo de autodeclaração, o que representa 64,20% do total de produtos.

As autodeclarações mais utilizadas foram: degradável (53%), reciclável (40%) e vida útil do produto alongada (28%), as quais estiveram presentes em sete categorias de produtos. A autodeclaração degradável esteve presente em 244 produtos; a reciclável, em 182 produtos; e a vida útil do produto alongada, em 129 produtos.

Destas autodeclarações, cabe destacar as contribuições da degradabilidade e do prolongamento de vida útil, sobretudo em suas implicações sobre a disposição final do produto que garantem um menor impacto ao meio ambiente. Quanto à característica de ser reciclável, apesar de importante, percebe-se que seus efeitos poderão não se efetivar, uma vez que não existem garantias de que os produtos e matérias-primas serão reciclados, principalmente pela estrutura vigente no país quando da realização da coleta de resíduos sólidos.

Em todas as categorias de produtos foram utilizados mais de um tipo de autodeclaração, atendendo pela denominação de autodeclarações combinadas (ver figura 5). A autodeclaração com menor utilização por produtos e categorias foi a projetado para desmonte: apenas dois produtos a utilizam e se encontravam dispostos na mesma categoria, o que representou um número inexpressivo ante às declarações degradável, reciclável e vida útil do produto alongada, já detalhadas.

Foram constatados produtos cujas autodeclarações apresentadas não podiam ser consideradas como tais segundo as normas ISO 14021. Essas autodeclarações foram utilizadas em 113 produtos, o que representa 15,8% dos produtos analisados. Como exemplo citam-se as autodeclarações: “não utiliza trabalho infantil” e “certificação ISO 14001”, que se referem à empresa e não ao produto. A “certificação ISO 14001” faz referência ao sistema de gestão ambiental da empresa e não especificamente aos produtos da empresa, portanto, não se enquadra como rotulagem ambiental. Tal constatação é preocupante, principalmente por se tratar de uma empresa que foi criada para vender apenas “produtos verdes”, o que mostra a fragilidade na análise e seleção dos produtos que vão ser vendidos sob esse rótulo. Nessa constatação reside a necessidade de a empresa possuir um maior conhecimento acerca da rotulagem ambiental e maior rigor quanto à escolha dos produtos, a fim de que a autodeclaração não se caracterize como uma forma de eco-enganação.

Estratégias de Ecodesign

Quanto às estratégias de ecodesign, percebe-se a predominância da estratégia “seleção de materiais de baixo impacto” em todas as categorias de produtos analisadas, mais especificamente do princípio “materiais não agressivos” que, sozinho, abarcou 529 (74%) dos 715 analisados. Os demais princípios dessa estratégia ocorreram em menor número, a exemplo de “materiais reciclados” presente em 227 produtos e “materiais recicláveis”, identificado em 195 produtos (ver figura 7).

O uso deste tipo de estratégia traz importantes contribuições, principalmente ao se reduzir o nível de agressividade dos materiais utilizados, diminuindo os impactos no meio ambiente e na saúde humana. Também se ressalta as contribuições do uso de materiais reciclados, que reduzem o uso de recursos naturais e a disposição final de produtos e também contribui para a sustentabilidade. Apesar disso, tais contribuições são relativamente menores, pois nada garante que, de fato, os materiais serão reciclados já que o processo de reciclagem inclui atividades que estão fora do domínio e controle das organizações responsáveis pela confecção/venda de tais produtos.

A segunda estratégia mais predominante foi a “otimização do pós-uso”, englobando um total de 169 produtos. Os princípios identificados nesta estratégia foram ”reutilização do produto” e “reciclagem de materiais”. A reutilização do produto traz importantes contribuições por permitir explorar melhor a vida útil do produto, reduzindo o consumo de novos materiais e retardando o início de um novo processo produtivo; ao passo que a reciclagem do produto apresenta contribuição menor, como já comentado anteriormente.

A estratégia “otimização do tempo de vida do produto” se fez presente em seis das oito categorias de produtos analisados, porém, foi verificada apenas a utilização do princípio “confiabilidade e durabilidade”, resultando em um total de 154 produtos ou 21,54% do total de produtos estudados. Esse princípio traz importantes contribuições, sobretudo no que se diz respeito a durabilidade, que permite o prolongamento da vida útil do produto, isto é, estende-se o tempo de utilização, retardando o descarte e, diminuindo, por consequência, o consumo de recursos em um espaço de tempo maior.

Figura 7. Estratégias de ecodesign

Figura 7

Fonte: Elaboração própria

Figura 7

No tocante à estratégia menos utilizada, pode-se destacar o “desenvolvimento de novo conceito”, que ocorreu em apenas 20 produtos, e que contemplou os princípios “integração de funções” e “otimização funcional do produto ou componente”. Significa dizer que de todos os produtos pesquisados, os que utilizam essa estratégia se resumem a apenas 2,80%. Apesar de pouco utilizada, essa estratégia apresenta contribuições importantes, principalmente por interferir nas demais estratégias. Porém, no momento de concepção dos produtos, faz-se necessário pensar e contemplar todas as etapas do ciclo de vida do produto, o que requer profissionais de design capacitados e sensíveis às questões ambientais que possuam visão e competências de trabalho interdisciplinares. Certamente, em razão desses aspectos, é que se observa a dificuldade de aplicação dessa estratégia pelas empresas.

A única estratégia não utilizada foi a “redução do uso de materiais”, o que demonstra a despreocupação das organizações com a finitude dos recursos naturais, considerando-os abundantes e inesgotáveis.

Por fim, cabe destacar que quase todas as estratégias de ecodesign foram utilizadas, no entanto, estas contemplaram o uso de poucos princípios, os quais se encontravam entre aqueles mais fáceis de serem aplicados e de fácil visualização por parte dos clientes, a exemplo da seleção de materiais de baixo impacto. Portanto, pode-se inferir que o viés econômico, fortemente presente, resulta na limitação de opções no que se diz respeito a concepção, desenvolvimento e aprimoramento de produtos com atributos verdes.

CONCLUSÃO

O tipo de rotulagem mais utilizado nos produtos analisados foi a autodeclaração, sendo a degradável (53%), a reciclável (40%) e a vida útil do produto alongada (28%) as mais comuns. O uso de selos verdes se deu em apenas 20% dos produtos, os quais apresentavam principalmente os selos FSC e IBD.

Tais resultados mostram claramente a opção e preferências das organizações pelas autodeclarações que podem advir de aspectos como a não necessidade do envolvimento de terceiros (empresas certificadoras) para que esse tipo de rotulagem seja utilizado, o que reduz significativamente os custos com rotulagem, o tempo de operacionalização também se torna bastante reduzido, e a forma de comunicação do atributo é mais direta, simples, objetiva e de fácil entendimento pela população em geral. Por outro lado, há poucos tipos de selos verdes disponíveis, bem como fortes exigências para atendimento aos critérios impostos por tais selos, muitas vezes de difícil cumprimento por parte das pequenas e médias empresas.

Não obstante, as facilidades de utilização das autodeclarações poderão levar a práticas de enganação por parte das empresas, uma vez que essas, de antemão, não precisam ser comprovadas. Também poderão supervalorizar um tipo de atributo que tem pouca ou nenhuma contribuição ambiental imediata em detrimento de outros tipos, a exemplo de “reciclável”, que trata de uma possibilidade futura de ganho ambiental que poderá tornar-se ou não realidade e o “consumo reduzido de água/energia”; diferente de “não contém substâncias tóxicas”, cujos ganhos ambientais são imediatos.

Quanto às estratégias de ecodesign, faz-se necessário pensar quais etapas do ciclo de vida do produto podem causar mais impactos ambientais e, a partir da concepção do produto, definir os atributos ambientais a serem incorporados em cada etapa. No caso estudado, das oito estratégias de ecodesign, as mais utilizadas se referem à estratégia ”seleção de materiais de baixo impacto” (materiais não agressivos) e a estratégia de “otimização do pós-uso” (reutilizável e reciclável). Esse cenário revela a pouca preocupação em relação às outras etapas do ciclo de vida dos produtos.

Por fim, cabe destacar as particularidades dos diversos produtos e setores, que refletem condições diferentes para a criação de produtos verdes, envolvendo aspectos relacionados à oferta, como condições internas organizacionais (recursos financeiros, insumos, tecnologia, conhecimento, entre outros) e as condições de mercado (demanda por produtos verdes, nível de conscientização da sociedade e dos clientes, concorrência, pressões governamentais, entre outros). Ambas as condições poderão apresentar-se mais ou menos favoráveis à criação de produtos verdes.

No que se refere às contribuições da pesquisa, destaca-se a ampliação do debate acerca dos produtos verdes, seus atributos e suas diferentes formas de avaliação, sobretudo ao utilizar-se conjuntamente duas importantes ferramentas de gestão ambiental: Ecodesign e Rotulagem Ambiental. Quanto às limitações, em razão da quantidade de produtos analisados (n=715) e a utilização de apenas dados secundários, não foi possível cruzar informações advindas de clientes, fornecedores, empresas produtoras entre outras. Como sugestões para futuras pesquisas, recomenda-se que esse estudo seja ampliado para outras empresas que possuem linhas de produtos verdes, tanto fabricantes como especializadas na comercialização.


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